quinta-feira, 31 de Maio de 2007

Por entre o muro do teu silêncio...


E vejo surgir, por entre o muro do teu silêncio, uma flor amarela. Frágil. Secreta. Selvagem. À espera de um sorriso teu, que lhe retire a seiva salgada e se desfaça num abraço prolongado. Vejo surgir, por entre o muro do teu silêncio, o mesmo rosto que tomei, demoradamente, entre as mãos. Suave. Macio. Perfeito. À espera que os olhos se fechem, para ser beijado longamente. Vejo surgir, por entre o muro do teu silêncio, no chão sobre o qual me debruço, um rosto de marinheiro reflectido no mar. E um remo a ondulá-lo, em direcção a parte nenhuma, sem te perder, no horizonte. Vejo surgir, por entre o muro do teu silêncio, aquele abraço que só tu consegues dar. Quente. Profundo. Intenso. Como se todo o mundo te estivesse entre os braços, e toda tu fosses mar, o meu mar. Vejo surgir, por entre o muro do teu silêncio, o meu mar. Imenso. Salgado. Sentido. Imerso no teu beijo húmido de orquídeas brancas deixadas junto à espuma. Vejo surgir, por entre o muro do teu silêncio, a tua lua. É tarde demais para voltar para trás…

quinta-feira, 17 de Maio de 2007

Tocar-te...


Não sei como foi, só sei que foi assim. As imagens de ti a irem e a virem, à medida que as minhas mãos percorrem este espaço a preto e branco, como se te percorressem. Não digas nada. Deixa-me continuar eternamente a contemplar o teu sorriso cúmplice daqueles dias. O teu olhar centrado no meu olhar. Como é bom poder, a todo o momento, voltar a ter-te reflectida nas águas da memória. Levada e trazida pelas ondas. Ver-te chegar em espuma, como do alto de ti, na noite em que te desvendei. Diz-me o que faço com toda tu dentro de mim. Cada anoitecer meu, é em ti. Como cada acordar. Deixa-me continuar a sonhar-te. Poder ver-te de novo onde o mar se transforma em fogo de artifício contra as rochas que habitamos. Deixa-me ser-te de novo. Porque as palavras já não me chegam, e eu tinha tantas, todas para te dar. Porque todas se me resumem a uma: tu. O teu nome. A tua voz a dizê-lo ao meu ouvido, até não precisarmos mais dos nomes, porque o beijo os resume. É aqui que te toco, que te revejo a surgir no horizonte. Brilhante como o sol de um fim de tarde qualquer, que sempre quis desenhar para ti. Não tenho o dom ser grande. Apenas o de navegar pelas palavras e o de te tocar. Porque mais nenhuma música faz sentido, senão aquela que tu me fizeste e fazes fazer.