Por entre o muro do teu silêncio...
E vejo surgir, por entre o muro do teu silêncio, uma flor amarela. Frágil. Secreta. Selvagem. À espera de um sorriso teu, que lhe retire a seiva salgada e se desfaça num abraço prolongado. Vejo surgir, por entre o muro do teu silêncio, o mesmo rosto que tomei, demoradamente, entre as mãos. Suave. Macio. Perfeito. À espera que os olhos se fechem, para ser beijado longamente. Vejo surgir, por entre o muro do teu silêncio, no chão sobre o qual me debruço, um rosto de marinheiro reflectido no mar. E um remo a ondulá-lo, em direcção a parte nenhuma, sem te perder, no horizonte. Vejo surgir, por entre o muro do teu silêncio, aquele abraço que só tu consegues dar. Quente. Profundo. Intenso. Como se todo o mundo te estivesse entre os braços, e toda tu fosses mar, o meu mar. Vejo surgir, por entre o muro do teu silêncio, o meu mar. Imenso. Salgado. Sentido. Imerso no teu beijo húmido de orquídeas brancas deixadas junto à espuma. Vejo surgir, por entre o muro do teu silêncio, a tua lua. É tarde demais para voltar para trás…
