quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2007

Lentamente, virei o rosto para ti...


E sempre tu no meu pensamento. Plena de brilho, de sorriso etéreo, ofuscando toda a beleza do mundo. Há uma âncora que me prende a ti, como se todo o mar me levasse apenas num sentido. Vejo-te de longe. Quase não ouso olhar-te, porque talvez seja demasiado pequeno para te ver. Mas, lentamente, virei o rosto para ti. Como se olhasse o mais rigoroso mapa. Como se fosses o mais precioso tesouro. Vejo-te em todo o tempo. Vejo-te em mim, como se nem eu mesmo habitasse em mim. Vejo o meu rosto no teu rosto, lentamente, contornando o vento, deixando para trás aquele rasto de cabelo que há pouco toquei com a ponta dos dedos. A chuva traz-me em direcção ao rosto uma imagem de ti em cada gota. Como se todos os ventos, todas as rotas, todas as viagens me contornassem com toda a força. Como se tudo isso quisesse dizer que és tu. A lua comanda as marés, comanda os marinheiros. A lua dá o seu sopro aos ventos, às velas. Como que dizendo que nada mais tenho do que as minhas mãos, os meus sons, o meu barco. Lentamente. Virei o meu rosto para ti. Porque te quero aprender de cor. Cada retalho de ti. Cada parte do teu mapa do tesouro. Porque te quero mostrar tudo o que tenho, que é, afinal, tão pouco, porque sou apenas eu mesmo. Lentamente. Virei o meu rosto para ti. Porque te quero dizer que talvez nunca tenha realmente partido. Porque te quero dizer que tu és. Tu és. Lentamente. Virei o meu rosto para ti. Porque mesmo longe, dás sentido aos mares, às rotas do meu sangue em cada veia. Porque mesmo longe, o ritmo do meu coração obedece às fases da lua, e a ele me obedecem as palavras. Lentamente. Virei o rosto para ti. Para te dizer o teu nome ao ouvido. Para te olhar até ao horizonte…

quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007

Deixa-me escutar-te...


Deixa-me ouvir de novo a tua voz. Deixa-me sentir embalado por ti, por seres toda tu na tua voz. Deixa-me sentir de novo cada fragmento do teu riso. Desenhar no ar o perfil do teu suspiro. Deixa-me ver-te de novo. Como se o mundo parasse quando eu te vejo, porque é assim que sinto. Deixa-me ouvir-te falar, de tudo e de nada. Encontrar toda a verdade do mundo na tua voz. Deixa-me ouvir-te. Deixa-me escutar-te a dizeres cada uma destas palavras, ou outras, ou todas as palavras do mundo resumidas no teu nome. Deixa-me ouvir-te dizer-te, ouvir-te dizer-me. Escutar cada parte de ti colocada nesses sons. Deixa-me ver-te sem fim, enquanto te escuto.
E no fim, deixa-me dizer-te o mundo todo num abraço. Deixa-me dizer-te que não sou forte, nem herói, nem admirável. Deixa-me dizer-te que sou apenas Marinheiro em Terra. Que toda a riqueza que tenho são as palavras. E que as mais preciosas, as guardo como tesouro. Escondido. Difícil de alcançar. E que cada letra, cada palavra, cada som que produza cada palavra, cada estalido da língua, cada pequeno som que te dê, o que de mais precioso tenho, é para ti. Para ti...

quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2007

Amar é como remar em mar alto...

E encontrei estas palavras onde menos esperava. E como se fossem os teus braços, empurraram-me de novo para o mar, onde fui remando. Para mim, mar e amar são a mesma coisa, a mesma palavra. O mesmo barulho de um respirar. O mesmo movimento perpétuo. A mesma espuma deixada e trazida, como aquele beijo prolongado e salgado, com o som das águas ao fundo. Noto que sou estorvo na ilha, que me empurra para o mar, e no mar, que me empurra para a ilha. Por isso, no fim de cada viagem, antes de descer das velas e subir de novo à montanha, fico aqui. A ver a espuma chegar, ficar e regressar. E vejo-te regressar ao reflexo do mar, ao mais fundo do horizonte, de face voltada para mim, ao fim do dia. Como o beijo só faz sentido de face voltada para mim. Como o abraço só faz sentido de face voltada para mim. Como o teu sorriso só faz sentido de face voltada para mim. E todos os dias remo um pouco em mar alto. Depois iço as velas e vejo o dia passar por mim, como tu, que por vezes vejo ao longe, na encruzilhada das rotas. Depois regresso aqui, a ver a espuma. Ainda a preparar a tua chegada. Voltada para mim. Até acordar, para voltar a passar pelo dia, por ti, na encruzilhada das rotas. Depois de remar um pouco. Em mar alto.