quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007

Deixa-me relembrar o teu sorriso…


De olhos fechados, volto a ouvir o marulhar ao longe. Um movimento perpétuo. Um vai e vem de espuma, que me traz de novo à memória o teu sorriso. Deixa-me relembrar o teu sorriso. Cada segundo do movimento dos teus lábios a rasgarem o teu rosto com as cores do teu sorriso. Como o barulho que vai da onda à espuma. Como se estivesse do lado de dentro do mar. E olho-te, eternamente, infinitamente, como da primeira vez. Vejo-te de novo. Escuto de novo a tua voz quente, como da primeira vez. Volto a ver-te, de olhos fechados. E sempre o teu sorriso. O teu olhar de menina, enquanto a tua mão volta a ficar com a palma encostada ao meu rosto. Eu continuo aqui, a olhar o mar, ao longe. Vou sorrindo, cada vez que voltas, guardando cada momento desses nesta arca do tesouro que guardo aqui. Tenho ali a lua, um resto de terra, que acaba ali em baixo, onde a espuma vai e vem, com a duração do teu sorriso, o mar a toda a volta, como som de um respirar. De olhos fechados, volto a ouvir o marulhar ao longe. Um movimento perpétuo. Um vai e vem de espuma, que me traz de novo à memória o teu sorriso. Como se estivesse do lado de dentro do mar. O teu sorriso. Deixa-me relembrar o teu sorriso…

terça-feira, 23 de Janeiro de 2007

E sentir tudo de novo…


E como se a tua mão se unisse e desunisse da minha, afastando o mar do barco, aportei aqui. Voltei a subir à montanha dentro de mim, depois de te ter respirado inteira, de braços abertos, junto às velas içadas. Fechei os olhos e deixei-te a lágrima que não consegui chorar. Deitado, agora, de braços abertos. De um lado, o nó de marinheiro com a minha vontade de te ter. Do outro, o meu coração na tua mão. Olhando-te de longe. Minuto a minuto da tua mão a desenhar o meu rosto. Passo a passo, o teu corpo de éter. Curva a curva, o teu abraço. A Lua. Sobre mim. E tudo de novo. O som do mar. Cada segundo do teu corpo a entrar no meu corpo. Do teu cabelo ondulando os meus dedos. E sentir tudo de novo. O teu sorriso de olhos fechados. O teu beijo salgado, de mar. Um vento de iodo, de cada lado dos teus ombros. E sentir tudo de novo. A Lua, sobre mim. Partida ao meio, contigo a revelá-la. Em forma de sorriso. Abrindo. Abrindo mais, como quando fechavas os olhos para eu te ver melhor. Deitado, agora, de braços abertos. De um lado, o nó de marinheiro com a minha vontade de te ter. Do outro, o meu coração na tua mão. Olhando-te de longe. A Lua. Estarei aqui. Sozinho, depois da lágrima que não consegui chorar. À espera de um céu que traga o teu mapa. Preso à terra, como a ti. A amarra forte. O barco contra a corrente. À espera da tua rota. E sentir tudo de novo…

domingo, 14 de Janeiro de 2007

Escuta-me...


Escuta-me… Põe, espalmada, a tua mão sobre o meu peito. Desata, um a um, os nós de marinheiro do meu coração. Regressa. Sente o ritmo da minha respiração, alimentada pelo vento que ainda resta de outras manhãs de névoa, acordadas pelo sol que te reflecte. Escuta-me. Põe a tua mão sobre a minha, fecha os olhos comigo, sente a vaga que empurra o barco em direcção a ti. Tempera de novo a espuma com o sal do teu beijo, deixa que o meu abraço te revele inteira e que o teu rosto seja sombra da lua. Deixa que eu seja. Porque te procuro em cada espaço de mim, em cada onda, em cada reflexo, em cada vez que o remo afasta esta água em que te vejo a cada segundo que passa, e em que te respiro. Escuta-me, porque tenho todo o mundo para te dizer. Todo o mar. Porque tenho para te dar tudo o que não é meu e vejo. Tudo o que posso abraçar em ti. Tudo o que posso beber no teu beijo. Tudo o que posso sentir só ao olhar-te demoradamente. Tudo o que é tão pouco, que sou, no fundo, eu mesmo… Escuta-me. Sou para ti.

quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007

Come what may...

O poeta que diz à musa... «Never knew I could feel like this», para terminar com «I will love you, untill my dying day»...

segunda-feira, 8 de Janeiro de 2007

Há algum tempo que não me sentava aqui...


Vieram-me à memória, como à tona da água salgada, uma a uma, as letras com que compus o teu nome. Disse-o vezes sem conta, como que para preencher a tua ausência, mesmo sabendo que contrariei a espuma com que a onda do teu braço fez abrandar o meu barco.
Quero dizer-te, baixinho, ao ouvido, o teu nome. Vezes sem conta. Navegar infinitamente no teu sorriso de olhos fechados, onde fui pela primeira vez. Emprestar o sal ao teu beijo, até adormecer.
Boa noite...

sábado, 6 de Janeiro de 2007

Tenuemente, de volta à tona…


Boiando, de costas na água salgada, calma, vejo que regressei, lentamente, à tona. As rotas são complexas, mas os ventos e as correntes dão-lhes razão. E a força de uma onda empurrou-me lentamente para cima, até se mostrar, primeiro turva e depois nítida como o reflexo que desenhou em torno do corpo que flutua, a única luz, redonda e branca, intensa. A Lua. Reflectida em mim. E eu desenho de um corpo a boiar em alto mar. E os pulmões voltam a encher-se, lentamente, de brisa marinha. E os olhos deixam, lentamente, escorrer o resto de água, e voltam a encher-se com o que sempre esteve no céu, sem que eles a vissem. A Lua. E o sangue foi voltando, lentamente, a correr. E pedaço a pedaço o barco foi-se erguendo. Refeito de outras viagens. Pedaço a pedaço. Consulto a carta de marear e inicio a navegação de cabotagem. Redesenho a rota e estabeleço o destino. A Lua. Sei que é longe, e talvez o barco não aguente. Mas sei também que se naufragar desta vez talvez não voltarei à tona. Nunca mais.

«There was a boy... A very strange enchanted boy. They say he wandered very far, very far… Over land and sea. A little shy and sad of eye, but very wise was he. And then one day, a magic day, he passed my way. And while we spoke of many things, fools and kings, this he said to me: "The greatest thing you'll ever learn, is just to love and be loved in return."»
(«Nature Boy», E. Ahbez)