quarta-feira, 30 de Novembro de 2005

Há precisamente setenta anos... III

(Foto: Ana Sofia Silva)

«Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo... É cedo ainda. Mas passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-lo sem palavras, sem consciência mesmo por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum excepto Deus.»

(Excerto do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares)

Há precisamente setenta anos... II


(Foto: Ana Sofia Silva)
«Invejo - mas não sei se invejo - aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.
Que há-de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço.
Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. Mas, ao fazê-la, o pensamento é livre, e todos os príncipes encantados podem passear nos seus parques entre mergulho e mergulho da agulha de marfim com bico reverso. Croché das coisas... Intervalo... Nada. De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentidno... Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter... Uma vontade morta e uma reflexão que a embala, como a um filho vivo... Sim, croché...»
(Excerto do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares)

Há precisamente setenta anos...


Há precisamente setenta anos morreu Fernando António Nogueira Pessoa. Ninguém saberá de cor a sua vida, nem a sua obra, nem a sua morte. Como ninguém saberá onde é a verdade e a ficção. Onde é ele e onde é outro. É talvez errado considerá-lo o maior escritor português, se é que há maior. Mas terá sido, pelo menos, um dos maiores. Ninguém saberá de cor decifrá-lo com exactidão. Mas os que o admiram, e se deixam tocar por ele, ficam sempre com a vontade de ser com ele, de olhar pelo olhar dele, por querer mais dele. Ver com ele o que se vê da janela do escritório, sentir com ele a solidão do quarto, passar com ele pelas ruas do Chiado. Sofrer com ele. Ver com ele. Sem o decifrar. Sem o saber todo. Que importa? Ante ele, as palavras que usamos são trémulas e poucas e insuficientes para as imagens que temos. Viveu só. Morreu só. Setenta anos depois. Hoje é lido, conhecido, citado. O humilde guarda-livros de Lisboa. Sozinho. Sempre. Esquecei as homenagens, amanhã esquecidas. Sede meu Mestre. Ensinai-me a ser, pelo menos, um pouco como vós.

domingo, 27 de Novembro de 2005


Súbito, deixou de ser importante não estar do lado certo da barricada. Como se o mundo parasse, para passar a ser movido pelo mar de cordas por onde fomos navegando de mão dada. Mergulhando, lado a lado, de olhar colado, no complexo mar de sons, revolto a cada onda, para se espraiar em espuma, à superfície de nós. Como se aquele Stradivarius fosse tocado por ti, e de ti saisse toda a música que nos encheu e de nós transbordou. À margem, e novamente mergulho. Sigo-te, no teu corpo pleno. Acompanhando a arcada. Crescendo. Fortíssimo. Cadência. A segundos de silêncio, estou sozinho frente à orquestra. "The decisive moment". Prolongo o silêncio mais um segundo. A expectativa. E em três sons digo-te todas as palavras do mundo. Porque nenhuma delas poderá alguma vez dizer.

sexta-feira, 18 de Novembro de 2005

O Mar, de Fausto Bordalo Dias

(foto cedida por Eleanora)


E todo o mar se cobriu de infinitas riquezas
de anil e sedas e jóias e de odoríferas drogas
de si deitava nas praias moscatéis e licores
adoçando de sua bravura
o mar
nas margens adamascadas andam náufragos dispersos
mariscando lagostas ostras choupas taínha
se bebem vinhos distintos de singulares aromas
se anda ao longo da costa em ofertas

o mar

E entregou Leonor
seus cabelos aos ventos
na quietude tão só tão ausente de tudo
e mais quieta era a luz
no sossego das águas
e uma música escorre dos céus
devagar

E fazem tendas de aduelas de alcatifas majestosas
de outras peças de ouro e prata de cambraias e cetins
cobertas de colchas vermelhas de rosários de cristal
mas mais garrido do que toda aquela praia
o mar
e fazem velas das camisas e outras de damasco verde
as amarras de outros panos de veludo carmesim
de um remo fizeram o mastro
e a enxárcia de uma linha
e tão docemente embala este batel
o mar

Se todo o mar se cobriu de infinitas riquezas

terça-feira, 15 de Novembro de 2005

Viagens em marcha-atrás

Há muito tempo que não via a paisagem da janela de um comboio. Desta vez, como que de marca-atrás. Como que não querendo, de facto, ir. Sentindo não eu a passar pelo quadro da janela, mas o quadro da janela passando por mim. E eu olhava, eternamente, o sítio de onde parti. E tu, eternamente tu em mim. Como se eu soubesse de antemão que aquela viagem seria preferível até metade, porque nada iria fazer ao destino senão voltar para trás. Novamente em marcha-atrás, à noite. Como que conservando frescas as observações ao meu desleixo. Dei por mal empregue o dinheiro gasto. Excepto pelo exemplar de «O nome da rosa», que comprei pelo preço do bilhete de regresso, e um curto Bach para violoncelo solo transposto para palavras. E, de novo, como martelos, as observações ao meu desleixo. Compensadas com «O nome da rosa», o Bach em palavras e as contas do dinheiro gasto. A lembrança de um dia em silêncio, passado a observar. Em taxis mudos e sonolentos. À espera da hora de escrever. Para que tudo se esqueça ao virar da página. No entanto, persiste tudo isto, como um peso sobre mim. Estou fraco. Anseio por voltar a sentar-me, sozinho, no restaurante de Gaia, o do costume. Saborear cada cravanço das observações feitas ao meu desleixo. Continuo, de marcha-atrás, de volta à origem. À espera de tudo isto. À espera de, um dia, poder assegurar-te, com a voz mais alegre que conseguir encontrar: "a partir de hoje, posso fazer-te feliz".

segunda-feira, 14 de Novembro de 2005

Sou eu, de Álvaro de Campos


Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Basta! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo
- A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Basta, sim basta! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio! ...

terça-feira, 8 de Novembro de 2005

A terra que te ofereço, de Ruy Duarte de Carvalho (Angola)


Quando, ansiosa, pela primeira vez pisares a terra que te ofereço, estarei presente para auscultar, no ar, a viração suave do encontro da lua que transportas com a sólida, a materna nudez do horizonte.
Quando, ansioso, te vir a caminhar no chão de minha oferta, coloco, brandamente, em tuas mãos, uma quinda de mel colhido em tardes quentes de irreversível votação ao Sul.
Trago para ti em cada mão aberta, os frutos mais recentes desse Outono que te ofereço verde: o mês mais farto de óleos e ternura avulsa. E dou-te a mão para que possas ver, mais confiante, a vastidão sonora de uma aurora elaborada em espera e refletida na rápida torrente que se mede em cor.
Num mapa desdobrado para ti, eu marcarei as rotas que sei já e quero dar-te: o deslizar de um gesto, a esteira fumegante de um archote aceso, um tracejar vermelho de pés nus, um corredor aberto na savana, um navegável mar de plasma quente.

domingo, 6 de Novembro de 2005

Até já...


Volta-me, intensamente, à memória o Magnum Mysterium de Poulenc. E perdoa-me se te peço para me deixares ser o teu menino, nos braços, cheirando a Natal, no meu Convento de Arouca. Sei que não sou, que talvez não saiba ser. Mas sei uma coisa. Que não quero ver-te partir. Sei ainda que quero estar aí. Onde precises. Ser para ti o mais doce sol de outono. Que descanses sobre os meus ombros, embalado pelo ir e vir das ondas da tua voz. Canta-me. Canta-me como só tu és. Com toda tu, como sempre, dentro da tua voz. No calor de um afago, no brilhar de um sorriso. Canta-me. Como se pudéssemos prolongar cada som ao infinito. Deixa-me ser. Deixa-me ouvir-te. Pegar nas tuas mãos e saber que estás aqui. Saber que estou aí. Deixa-me voltar a ser o teu menino. Não quero ver-te partir. Ofereço-te esta lágrima. Canta-me. Infinitamente. Embala-me. Não para que te diga adeus. Ou boa noite. Ou até amanhã. Mas para que te diga. Até já...

sexta-feira, 4 de Novembro de 2005

24 razões para se amar uma mulher

1 - O cheirinho dela é sempre bom, mesmo que seja só do champô.

2 - O jeitinho que ela tem de encontrar sempre o lugarzinho certo no meu ombro.
3 - A facilidade com que cabe nos meus braços.
4 - O jeito que tem de me beijar e, de repente, fazer o mundo ficar perfeito.
5 - Como é encantadora quando come.
6 - Ela leva horas para se vestir, mas no final vale a pena.
7 - Porque está sempre quentinha, mesmo que lá fora faça trinta graus abaixo de zero.
8 - Como sempre fica bonita, mesmo de jeans, t-shirt e rabo-de-cavalo.
9 - Aquele jeitinho subtil de pedir um elogio.
10 - Como fica linda quando discute.
11 - O modo que tem de encontrar sempre a minha mão.
12 - O brilho nos olhos quando sorri.
13 - Ouvir a mensagem dela no gravador de chamadas logo depois de uma grande discussão.
14 - A maneira como diz "Não vamos discutir mais, está bem?...", embora dali a uma hora...
15 - A ternura com que me beija quando lhe faço um carinho.
16 - O modo de me beijar quando digo "Amo-te".
17 - Pensando bem, só modo de me beijar já basta.
18 - O modo que tem de se atirar nos meus braços quando chora.
19 - O jeito de pedir desculpa por ter chorado por alguma estupidez.
20 - O facto de me dar uma bofetada pensando que vai doer.
21 - O modo com que pede desculpa quando a bofetada dói mesmo (embora eu jamais admita que doeu).
22 - O jeitinho de dizer "estou com saudades".
23 - As saudades que sinto dela.
24 - A maneira que as suas lágrimas têm de me fazer querer mudar o mundo, para que mais nada lhe cause dor.
________________________________
(Uma razão para cada hora do dia. Este texto circula na Internet, e foi propositadamente adulterado, para passar a constar na primeira pessoa.)

O cheiro da geada contra as pedras


Hoje, aqui, no silêncio de cada um, povoado pelo cheiro da geada contra as pedras, ao cair da noite, os candeeiros acendiam-se, enquanto ecoavam as badaladas das seis e um quarto. Era já noite. Da porta da Igreja saíam a correr algumas crianças, em vozes dispersas por estarem longe. Mais juntas que o habitual. Sem a pressa de irem ser cada uma em seu lugar. O frio afagava os ossos. E a tua imagem, a preto e branco, pairando, luminosa, sobre a noite que caía. Hoje, aqui, cheirava a Natal.

O 'Le Baiser', de Rodin, desaparecido

Contemplation of Rodin's sculpture 'Le Baiser.' (foto: Annebicque Bernard)
______________________________
Deitado, com as costas a sentir cada grão de areia, relembro o tempo que passei a contemplar 'Le Baiser', de Rodin, acreditando piamente que estavam ali esculpidos a minha mãe e o meu pai. As parecenças eram mais que evidentes para mim. E achava-me fruto da escultura. Pedra viva. A pequena escultura, oferecida não se sabe muito bem por quem, desapareceu. Como que se agora estivessem separados. Deitado, com as costas a sentir cada grão de areia, olhando um tecto de estrelas... Não sei por que me lembro que a escultura desapareceu. Como que separados...

quarta-feira, 2 de Novembro de 2005

Querer a margem...


O que faço aqui, se as mãos já se não prendem ao leme? Se sou náufrago, seguro à tona por um resto de madeira? Nada. Nada, senão contemplar o pôr do sol uma última vez. Nada, senão absorver cada toque ao de leve na pele desta acalmia. Preso ao barco por um resto. Sem bússola. Guiado pela carta de marear do meu corpo. Olhando, perdido, o meu reflexo nas águas. O que faço aqui? E lentamente aquieto todo o corpo, como que armazenando um resto de forças. Na esperança de conseguir o fôlego suficiente para continuar a contemplar tudo o que me é dado. A acalmia. Sentindo relaxar cada osso. Cada músculo. Cada parte insignificante de mim. Braçada após braçada. Em direcção ao reflexo de uma margem. Pensando apenas em chegar à margem. Na esperança de que o depois pertencerá a depois. Chegar à margem...