domingo, 31 de Julho de 2005

No infinito de nós

Não consigo desprender-me de ti. Como a água do mar, que desaparece aos olhos, mas o corpo continua húmido. Como pele, e o teu perfume. Como estrela última, em dia de névoa. Que persiste. Firme e brilhante, indicando a rota. Não há névoa que me separe de ti. O sol permanece lá, ainda que não o vejamos. E separados, continuamos a vê-lo. Continuo a ouvir. Somos um só. E todo eu me revolvo, dentro de mim, como o mar que conhecemos como as nossas mãos. Já não sabia o que era sentir as ondas dentro de mim. A espuma nas rochas. O salpico na cara. Este cheiro a iodo. Não consigo desprender-me de ti. Eu sou. Tu és. Nós somos. No infinito de nós.

sexta-feira, 29 de Julho de 2005

Só tu és


E foste o sol a entrar em mim. Cada raio, doce, uma arcada de ternura. Foste a calmaria. Nós. Em alto mar, separando o pôr do sol do reflexo das águas. Saboreio cada palavra. Cada silêncio. O mar. A espuma da tua voz. Suave. O nosso primeiro retrato. E és o sol a entrar em mim. Calmaria. Nós. Em alto mar. Barco à vela, separando o pôr do sol do reflexo das águas. Agora posso dizer que só tu és. Tu és.

quarta-feira, 27 de Julho de 2005

Princesa

Princesa... Vi-te do umbral deste horizonte. E naveguei até ti. Abracei-te com toda a força que me restava nos braços. Foram os teus cabelos as minhas cordas, e o teu arco na minha lágrima de felicidade. Toquei com cada dedo das mãos a areia fina do teu rosto. E o teu arco, o mar. Espuma marinha solta do teu abraço. Princesa... Toda a música do mundo aqui. E a lua, cheia e próxima, menos brilhante que os teus olhos. Se eu pudesse guardar-te dentro de mim. Só para mim. Acordar-te. Ver-te dormir. Princesa... Conheço-te agora. Cada traço de ti. Contornado com os meu dedos. Sei-te de cor quando não estás. E eu vejo-te aqui. Princesa... Tesouro. Silêncio. O silêncio encantado do teu sorriso. Todas as palavras no teu olhar. No teu brilho. Princesa...

domingo, 24 de Julho de 2005

Deixa-me aprender-te de cor

Fosse a tua voz este mar, e o suspiro sustido na vela. Um sopro. Os teus dedos na minha carne, como corda. Na areia fina da praia. Levo-te, de olhos fechados, com o vento a contornar-te o sorriso, até ao cabo. Abrimos os braços. Abraçamo-nos. Imensidão. Vemos o mar em que navego. Dou-te a conhecer cada onda, cada rocha, cada sopro de vento norte. Não sei se te beije agora. Toco a tua face com cada um dos meus dedos. Aprendo-te de cor, com o som do mar, onde vivo. Ensina-me a navegar contigo. Ensina-me a abraçar-te como o vento. A beber do teu beijo como água salgada. A fechar os olhos e a sentir a espuma das ondas nos teus braços. Ensina-me a olhar o horizonte do teu colo. A unir céu e mar. A cada arcada tua nas minhas veias vejo uma cor. Cor de que és feita. Luz. Pôr do sol. Fosse eu um pequeno barco nesse mar que és tu. Um sopro. O suspiro sustido na vela. Os teus dedos na minha carne, como corda. A cada arcada nas minhas veias. Ensina-me. Deixa-me aprender-te de cor, com o som do mar. Ensina-me.

sexta-feira, 22 de Julho de 2005

Monólogo em alto mar

Não é justo que o mar seja tão grande e que nos tenhamos encontado para logo nos desencontrarmos de novo. Não é justo que eu não tenha sabido onde amarras as tuas cordas de seda. Em que porto. Por que vieste? Se sabias que o meu barco mais não era que uma jangada. Se sabias que não sou niguém. Se sabias que todo eu sou de sonhos, que faço e desfaço, permanecendo maltrapilho. Por que insistes em navegar em rota divergente da minha? E todos os quadros que pintam de ti são diferentes do meu. Será que te lembras de quem sou? Em que Deus acreditas? O que és? Eu quero arrancar-te de mim, não sei se para longe ou não. Mas arrancar-te de mim. Enrolar-me em posição fetal, esperando que a lua volte cheia e me ilumine, maternal. Se sabias que nada mais tenho que esta jangada, estes trapos, por que vieste? Iludida por te terem dito que todo o mar era meu? É verdade, porque o sonho. Por te terem dito que o sol, a ilha, a praia, a brisa, tudo isso era meu? É verdade, porque o abraço, porque tenho tudo isso entre os dedos quando quero. Não ousaste sonhar. Preferiste prender-te a uma realidade só tua. Não te consigo arrancar de mim. Não te quero esquecer, nem desprezar. Não sei o que quero. Mas não te consigo arrancar de mim. Sai, porque me dóis. Deixa-me sozinho, como estava. Com tudo o que é meu e não quiseste. Com tudo o que sou e não quiseste. Quis um dia colar-te, pedaço por pedaço, mas descobri que nunca partiste, porque mantiveste a ilusão de que eras inquebrável. E eu ri-me, de dor. Com vontade de furar a tua cara com as minhas mãos e de vingar-me. Mas descobri que não conseguia, e que acabava por te acariciar a face. Não quiseste. Quis um dia dar-te a música que nos podia definir. Não quiseste. E dóis-me. Corróis-me. Apodreces-me por dentro. Mas eu resisto. Os meus sonhos são maiores que tu. Isso empurra-me. Os meus sonhos são maiores que tu. Não te desprezo, nem detesto, nem magoo. Como tu. Mas isso basta-me. Sorrio ao ar que me cobre a cara. É tarde. Está quente. E os meus sonhos são maiores que tu. Rio, por fim. E recomeço.

quarta-feira, 20 de Julho de 2005

O Som do Mundo
















Thievery Corporation ao vivo, Casa da Música, 14 de Julho de 2005
(Foto: Adriano Gonçalves)


Navegando pelo mundo, sentir outros cheiros, abraçar novas paisagens, agarrar nas mãos outras músicas. Tecer tudo isto, e fazer música. Fazer o som do mundo. Um tecido de música global. Uma síntese do que somos. Vizinhos. Tão grandes, mas, no final, tão pequenos.

quinta-feira, 7 de Julho de 2005

Fogo em alto mar


















(Foto: Ana Sofia Silva)

E senti, em alto mar, a tua chama sobre a minha carne. Fluindo pelo corpo, como sangue. Como vento nas velas rasgadas. Guardo-a da nortada e ofereço-a ao mar. Como cinza, ou alma. Resumes a luz e as trevas a esta mão que envolve a chama. Queima-me, para que eu renasça. Pássaro de fogo. Que me protege, sob as suas asas. Tímidas.

segunda-feira, 4 de Julho de 2005

Monólogo

Ah, como eu queria que o meu choro fosse este mar. Como eu queria que o meu coração fosse da cor deste por do sol. Como eu queria que sentisses este peso das cordas no peito quando a música ecoa dentro da minha cabeça, contra o silêncio do alto mar. Queria que fosses estas cordas. Esta guitarra, que conheço sem olhar, que flutua livremente sobre as tuas águas. Pudesse eu chorar. Pudesse eu tirar o meu coração e oferecer-to dentro de uma ânfora dourada. Fosse o brilho do teu olhar a saliva de um beijo, e eu não me cansaria de a beber. Por que foste? Queria mostrar-te aquela ilha ali. Abraçar-te como abracei aquela árvore ao despedir-me. Apenas sinto o abraço das cordas, do vento, das velas que rasgam em alturas de tempestade. Nada mais. Ah, pudesse eu sair de dentro de mim, e tornar-me nada. Explodir ao vento, à luz de um raio, ao estrondo de uma vaga em noite de trovoada. Por que foste? Não sei abraçar ninguém mais senão a ti. Não conheço outros lábios senão os teus. Falta terminar o contorno do teu corpo, conhece-lo com as minhas mãos. Sabê-lo de cor. Reconstruí-lo, a cada onda. Saber onde és mar, onde és areia, onde és céu. Como o barco não navega senão no mar, não sais de mim. O barco não serve senão no mar. E eu não sirvo senão em ti. Olha as estrelas, que te trazem a sinfonia que compusemos. Não te lembra nada? Não me perguntes se é amor, porque apenas sei os dias, as tardes e as noites. Apenas sei a dor e o alívio. Apenas sei a espuma das horas e o correr do sangue. E sei que tudo disto significa nada para ti. E choro. Incessantemente. Sem verter uma lágrima. Olhando os dias, as tardes, as noites. Manejando com cuidado a dor e o alívio. Provando a espuma das horas e sentindo o correr do sangue. Escrevendo na areia o teu nome. Onde um dia fomos. Ah, como eu queria que o meu choro fosse este mar...

sexta-feira, 1 de Julho de 2005

Choro de pedra

(Foto: Ana Sofia Silva)

Não consigo navegar no mar urbano. Perco-me no emaranhado de gente. Ensurdeço com as vozes em simultâneo. Não vejo nunca um sorriso. Tudo gira demasiado depressa. E tu não estás. Não vejo, não sinto. Sou autómato. Um igual a outros. E não me apetece nada mais senão dormir e chorar. Chorar copiosamente. Como um menino que nunca deixei de ser. Deitar-me num colo de pedra, e adormecer. Embrutecer. Tornar-me pedra. Porque sou só. Sozinho, atirado ao mundo. Empurrado para a frente, pelos gritos. Eu só ousei querer navegar. Navegar é preciso, viver... Tornar-me pedra. Talvez um barco de pedra. Com uma vela grande e um belo mastro, do cimo do qual possa ver tudo, da serra ao mar. E a ti. Como céu. Como mar. Como ar. Como ser. O meu ser. Tu. E eu, de pedra, deitado. Sobre ti.