quarta-feira, 25 de Maio de 2005

Ainda me dóis

Não sei se ainda me dóis, se são os meus olhos a quererem ver-te de novo, para que te possa sentir de novo, ao longe. Creio que sim, que ainda dóis. Porque continuo a procurar-te no baú vazio que me deixaste. Disseram-me um dia que a memória é o melhor cofre. É. Encho o baú de olhos fechados, depressa, à medida que me vão correndo nas veias as tuas mãos, a tua pele, os teus lábios, o teu beijo. Abro os olhos, e está de novo vazio. Estranho. Sorrio. És assim. E encolho-me ao pensar no passado. Amedronto-me ao pensar no futuro. E questiono o que devo fazer. Agora.

Casa

Sim. Voltei a ouvir «Casa», de Morelenbaum/Sakamoto. Depois de incessantemente te ter cantado que «as praias desertas continuam esperando por nós dois». E relembro-te, com meio rosto iluminado pela lua alta, com brilho no sorriso e apontando para uma luz ao fundo. E era um barco, dizia-te eu. Sou eu, agora, enquanto vais olhando da praia. E não posso voltar. Não queres que volte. E sigo a linha do horizonte, ao longo da linha, cortando cada onda que vai ter a ti. E não sabes já quem sou. Não sei se te lance ao mar, como âncora, se te abandone em outro porto desconhecido, se te guarde na ilha do tesouro. E enquanto penso, desvio o olhar, puxando com força as velas e chamando o vento. Para outro lugar.

Samba do Avião, de Antonio Carlos Jobim

Minha alma canta,
Vejo o Rio de Janeiro,
Estou morrendo de saudade
Rio, teu mar, praias sem fim,
Rio, você foi feito pra mim
Cristo Redentor,
Braços abertos sobre a Guanabara
Este samba é só porque,
Rio, eu gosto de você,
A morena vai sambar,
Seu corpo todo balançar
Rio de sol, de céu, de mar,
Dentro de mais um minuto estaremos no Galeão
Cristo Redentor,
Braços abertos sobre a Guanabara
Este samba é só porque,
Rio, eu gosto de você,
A morena vaisambar,
Seu corpo todo balançar
Aperte o cinto, vamos chegar,
Água brilhando, olha a pista chegando,
E vamos nós.

O amor em paz, de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes

Eu amei
E amei ai de mim muito mais
Do que devia amar
E chorei
Ao sentir que eu iria sofrer
E me desesperar
Foi então
Que da minha infinita tristeza
Aconteceu você
Encontrei em você
A razão de viver
E de amar em paz
E não sofrer mais.
Nunca mais
Porque o amor
É a coisa mais triste
Quando se desfaz
Porque o amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz

As praias desertas, de Antonio Carlos Jobim

As praias desertas continuam
Esperando por nós dois
A este encontro eu não devo faltar
O mar que brinca na areia
Está sempre a chamar
Agora eu sei que não posso faltar
O vento que venta lá fora
O mato onde não vai ninguém
Tudo me diz: não podes mais fingir
Porque tudo na vida
Há de ser sempre assim
Se eu gosto de você
E você gosta de mim
As praias desertas continuam
Esperando por nós dois

quarta-feira, 18 de Maio de 2005

Ver-te de novo

Hoje senti de novo o sabor adocicado do teu castelhano perfeito, dos teus olhos verdes no centro de uma cascata cristalina de cabelos ondulados e compridos, da tua cor. Falavas-me com a segurança de uma mulher linda, que eras. E vejo-te passar, vezes sem conta, em direcção à cabine telefónica, quando pensei que me fosses telefonar. Não precisas, eu estou aqui. Mas foste na mesma. E eu contigo. Saboreio, de novo, cada palavra, cada sílaba que dizes ao auscultador. Admiro-te como que não houvesse mais vida além de tu estares ali. Nunca mais te vi, a não ser aqui. A cada amanhecer de Verão.

quarta-feira, 11 de Maio de 2005

Quiero e Pienso, dos poemas Arión (versos sueltos del mar), de Rafael Alberti

Quiero sólo mirarte, mar, tu rostro de niño,
tu agilidad eterna de muchacho.
Para cuando ni pueda conocerte,
deja tu rumorosa
hermosura de ansiano.



Pienso, mar, que la tierra
no puede devolverte
un rumor tan dichoso como el tuyo.


Rafael Alberti

Procurar-te

E sempre este som de mar a inundar-me os ouvidos. Sempre esta areia, fugindo-me por entre os dedos da ampulheta oferecida por um pirata amigo. Sempre a música que te torna corpo aqui. A guitarra que nunca toquei para ti. Tudo o que não te dei. E, porém, tudo o que fui para ti. O que te disse sem dizer. O meu peito aberto a ti, como vela ao vento. Onde estás, agora? Que rumo tomaste? Acredito que te tenhas tornado também mar. Porque se algum dia tivemos amor, foi apenas doce morte. Creio que apenas tenho vontade de te procurar, e não de te encontrar. Creio que nada mais desejo do que reviver-te inteira. Porque nunca foste espuma, espasmo, saliva salgada. Foste sempre o antes e nunca o depois. Porque, apesar disso, foste tudo. Porque és, escondida em ti, tudo. E contorno-te. Outra vez. E outra vez. E outra vez. E sempre. E sempre. E respiro cada vez mais rápido, até o coração não poder mais. Permanece a tua sombra na areia. Humedece-me o corpo, a água que vem e vai. Contorno mais uma vez o teu corpo com as minhas mãos, como nunca o fiz antes. Creio que apenas tenho vontade de te procurar. E não de te encontrar. Onde estás, agora?

A veces, dos poemas Cármenes, de Rafael Alberti

A veces, el poeta
armado de rebenque y cólera apretada,
separando tinieblas, largas, inacabables,
feroz, corre a la casa de su Musa: - Oh ramera!
En dónde estabas, di? Que hacías, que no acudes
cuando te necessito?

Rafael Alberti

sexta-feira, 6 de Maio de 2005

Porque me lembrei e ti

Ao som das Kinderszenen, de Schumann, relembro-te. De olhos de um verde único e cabelo encaracolado pelas mãos de uma qualquer deusa. De mãos fortes. Relembro-te, plena de paixão, sem que eu te conseguisse dizer. Relembro-te, depois, com todas as palavras estudadas para te dizer. Com um ramo de estrelas para te oferecer e seis cordas de guitarra para atar aos caracóis do teu cabelo. Desatei o cordel a todas as cartas que me escreveste. Não tenho as que te dei. E vi as palavras flutuarem a cada nota do piano que nunca consegui que coubesse no meu quarto, mas que sempre aqui mantive secretamente. Ainda lembro o sorriso que me deste junto com o boneco de trapos que fizeste de mim. Dei-lhe um pequeno coração que tirei do meu. Para que fique sempre colado ao bocadinho do teu que nele deixaste. Tal como em mim.

Por que me lembrei de ti?

Demasiado tempo sem te ver.
Demasiado tempo sem me ver reflectido em ti.
Não acredito que o teu brilho no olhar era falso. Não acredito que o teu sorriso não era teu. Não acredito que a tua respiração rápida não era tão rápida como a minha. Não acredito que os teus olhos fechados para me sentires, com o luar a iluminar-te metade do rosto, não estavam fechados. Não acredito.

Ária de Calaf, da ópera Turandot, de Giaccomo Puccini

«Non piangere, Liù! Se in un lontano giorno io t'ho sorriso, per quel sorriso, dolce mia fanciulla, m'ascolta: il tuo signore sarà domani, forse solo al mondo. Non lo lasciare, portalo via con te! Dell'esilio addolcisci a lui le strade! Questo, o mia povera Liù, al tuo piccolo cuore che non cade, chiede colui che non sorride più!»