sábado, 30 de Abril de 2005

Novamente em direcção a ti

Trago entranhado em mim o teu silêncio. A ondular as ondas do mar. A percorrer todo o lençol de água até rebentar em espuma na areia molhada. Estou de regresso à praia deserta, onde estás na fotografia. Parei o tempo à hora do pôr do sol. Estendi a vela na areia e desenhei-me por dentro. Procurei por toda a parte as cores das saudades. A cor dos teus olhos. A sombra das tuas mãos. O brilho do teu sorriso. Percorro o lençol de água em sentido contrário. Afastando com os braços a espuma das ondas. Dando o peito às ondas. Contigo como vela. Em direcção ao horizonte. Era pôr do dol.

Marinera de Levante, de Rafael Alberti

Ay del mar
Si mi voz muriera en tierra,
llevadla al nivel del mar
y dejadla en la ribera,
y nombradla capitana
de un blanco bajel de guerra.

Ay marinera
Sobre el corazón un ancla
con la insignia marinera
y sobre el ancla una estrella el viento
y sobre el viento la vela.


Rafael Alberti (del libro Marinero en Tierra)

quarta-feira, 27 de Abril de 2005

Au revoir

I will always remember the parisienne moonlight in your eyes.

Portrait de Paris V

Ficaste em todos os meus retratos a preto e branco. Do cimo do Arc du Triomphe fotografei-te a acenar na Torre Eiffel. Da minha máquina pude ler nos teus lábios que dizias que Paris era toda tua. Pensei por momentos que ta tinha oferecido. Atirei-te um beijo, que vi subir pelos veios de ferro acastanhado. E acendeste as luzes da cidade. Corremos de mão dada pelo Metro, fotografando em movimento as carruagens que iam em sentido contrário. Fizemos, de cabeças encostadas, a sopa de letras na estação de Concorde, revendo a fotografia que ainda não tínhamos tirado em Monmartre. Entrámos no Sacré Coeur por portas opostas, e encontrámo-nos debaixo de uma das cúpulas, olhando em redor. Respirámos a paisagem que se estendia à nossa frente e voltámos.
Pareceu-me, por momentos, que eram as tuas mãos que tocavam as minhas cordas. Quis que fossem. Como se estivesses a abraçar-me. Relembro o teu olhar distante, perdido, quando o encontrei.
Desapareceste na bruma que acrescentei ao sol que fazia. Creio que ficaste por lá, porque não querias voltar. Relembro cada gota de chuva que acolhemos de cabeça virada para o céu. Guardo tudo numa caixa de madeira, coberta por um pó de magias secretas e da qual só tu sabes a palavra mágica que a abre.

Portrait de Paris IV

Bon giorno, Principessa. Embalei-te toda a noite ao som da Berceuse de Fauré. Tinhas o sorriso da Mona Lisa como um véu sobre o rosto. Segurei-te, como na estátua de que não sei o nome, deslizando pela Pirâmide do Louvre. Acendendo cada candeeiro dos Champs Elysées com o brilho dos teus olhos que repousou em cada quadro.

A Viagem, por Paul Nizan

«A viagem é uma sucessão de irreparáveis desaparições.»

Paul Nizan

terça-feira, 26 de Abril de 2005

Portrait de Paris III

Do cimo de Notre Dame apetece-me gritar o teu nome, mas digo-te ao ouvido que és o mar onde navego. E estende-se à nossa frente um imenso mar. De luz. Onde mergulhamos. De mão dada, tocamos cada parede por onde passamos. E da janela do comboio fazemos a fotografia. Onde colocamos tudo o que os olhos não vêem.

Portrait de Paris II

Estendo, como um lençol, o meu olhar pelas casas dos Boulevards. Penso em como gostaria de te mostrar cada janela, de mão dada, como se toda a cidade fosse minha. Apetece fechar os olhos e encher os pulmões de cada cheiro que povoa o ar. Abraço-te com força e não te deixo ir. Bebo do teu beijo em cada coluna da Ópera, ao som do por do sol. Revejo-te a correr em direcção às escadas, de cabelo solto e sorriso de menina. Far-te-ei entrar no Palácio, como uma princesa, como uma menina que realiza um sonho de conto de fadas. E estarei atrás de uma coluna, a cobrir-te com um beijo em forma de cortina vermelha. Até amanhã.

Portrait de Paris I

Volto a sair do Metro, em Paris, ao som da Pavane Pour Une Infante Défunte, de Maurice Ravel. Volta a contornar-me a cara o vento urbano. Passas apressadamente, de olhos azuis. Olhámo-nos um instante. Volto a fotografar-te, nos teus cabelos ondulados. Passas. Respiro ali Paris. Em dois segundos sonho e acordo. Em direcção ao mar urbano, que me espera.

quarta-feira, 20 de Abril de 2005

Mar urbano de Paris

Hoje acordei com a tua fotografia bordada a ponto-de-cruz nos meus olhos. Pareceste-me mulher, quando apenas via em ti uma menina. Desejei-te por um instante. Olho ao lado o relógio, e é tempo de partir. Estou de partida, por um mar de nuvens, até ancorar num mar de luz, onde não há mar. Irei navegar durante alguns dias no mar urbano de Paris. E de lá verei a mesma lua, as mesmas estrelas, o mesmo sol, se ele vier, que tu verás. Não estarei longe. Apenas um pouco ausente. Porque ainda não parti, e já sinto saudade.

sábado, 16 de Abril de 2005

Volver

Queria muito não ter esta amarra do tempo, e não pensar em nada a não ser em ti. E não precisar de esperar por ti no rebentar da onda. E não te procurar nos recifes de coral. E não te procurar nos baús de tesouros das ilhas imaginárias onde continuo a procurar-te, sem te encontrar. Queria muito, às vezes, voltar a ter medo do mar. Voltar a não amar nada a não ser um pequeno barco a motor e uma velha cítara, onde calejei os dedos a aprender os nós das velas. E não querer estar parado na praia deserta. Caminhar, caminhar, caminhar. Não ter vontade. Não ter desejo. Não ser abalroado por nada a não ser por ondas vazias de sentir. Não sonhar com nada a não ser com o que está para além do horizonte, porque para lá tinha a certeza que não ia. Só pensar em ti. Em ti. Em ti. Tocar-te. Cobrir-te com as minhas mãos. Calejar os meus dedos na tua cítara, e mostrar-te a música que tens em ti, mesmo sem saberes. Queria muito naufragar ao contrário, em alto mar. Contigo. Só pensar em ti. Em ti. Em ti. Escuta-me. Escuta-me. Escuta-me. E permaneço sozinho. Sozinho. Sozinho. Sozinho. Soz....

Não estou pensando em nada, de Álvaro de Campos

Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verão quente do dia,

Não estou pensando em nada, e que bom!
Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.

Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
E como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada...

sexta-feira, 15 de Abril de 2005

Amarra

E lembro-me que te prendi a mim com um cordel, tal como prendo o barco ao cais. Mas, como o barco, não ficas sempre, e eu procuro constantemente por ti em alto mar. E, às vezes, atraco em ti, ilha. E sonhei um dia pôr uma vida a navegar. Em ti.

quarta-feira, 13 de Abril de 2005

Acontece, de Cartola (versão de Caetano Veloso)

Esquece o nosso amor, vê se esquece.
Porque tudo no mundo acontece
E acontece que eu já não sei mais amar.
Vai chorar, vai sofrer, e você não merece,
Mas isso acontece.
Acontece que o meu coração ficou frio
E o nosso ninho de amor está vazio.
Se eu ainda pudesse fingir que te amo,
Ah, se eu pudesse
Mas não quero, não devo fazê-lo,
Isso não acontece.

Pleamar (fragmento), de Rafael Alberti

«Quiero volver a aquellos días de mi infancia junto al mar de Cádiz, aireándo-me la frente con las ondas de los pinares ribereños, sientiendome cómo se me llenam de arena los zapatos, arena rubia de las dunas quemantes, sombreadas a trechos de retamas.»
Rafael Alberti

quarta-feira, 6 de Abril de 2005

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa, de Álvaro de Campos

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, E romantismo, sim, mas devagar...).

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lagrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha olhos tristes por profissão

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!

Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

terça-feira, 5 de Abril de 2005

Adeus, Soares

Resolvi começar assim, porque me lembrei de como me costumavas cumprimentar. Era assim que me dizias olá. Dizias-me sempre “Adeus, amigo Miranda!”, com o teu gesto largo e a tua voz profunda. E falávamos sempre de música e de como iam as coisas. Desculpa só agora conseguir tratar-te por tu. Acho que sempre te respeitei demais para o fazer. Mas agora tu vais estar sempre aqui, por isso acho que posso tratar-te por tu.
Pregaste-me uma partida. Não contava que fugisses tão depressa. Não imaginas a falta que me tens feito. As saudades que tenho tido das nossas conversas no café, dos nossos passeios de carro ao som da Ópera, das nossas idas à Ópera, de quando íamos ao ensaio da Banda os dois, de quando íamos com a Banda para fora e nos riamos os dois, e sentíamos, lado a lado, cada nota que a Banda tocava, e sorriamos um para o outro, e não precisávamos e falar para nos entendermos.
Sabes, tenho várias fotografias tuas na minha memória. Da primeira Ópera que fomos ver, em que tu não contiveste as lágrimas quando a Mimi da La Bohéme se apaixonou pelo poeta. De quando te deixei em casa, um dia à noite, depois de um passeio de carro a ouvir a Tosca, e tu choraste quando o Mário estava preso e condenado à morte. E mal nós sabíamos que em breve estarias tu a cantar essa música. De quando fomos jantar ao restaurante onde gostavas de ir com o Silvino. De ti a ires jogar dominó todos os dias. De quando nós, a malta da pancadaria, como tu gostavas de dizer, te homenageámos. E tenho agora uma última. De mim, a dizer-te adeus, com as mesmas lágrimas com que te despediste de mim naquela noite.
Sempre te admirei. Sempre te quis ouvir. Sempre quis tentar ser-te útil no que precisasses. Vejo, agora, que falhei muitas vezes. Vejo, agora, que às vezes andamos demasiado preocupados com a nossa vida. Sempre pensei que conseguisses voltar a estar connosco. Que conseguisses voltar a sentar-te onde costumavas sentar-te no café. Que conseguisses voltar a vir fazer música connosco. Vejo, agora, que afinal conseguiste. Vejo, agora, que estás a fazer música connosco. Que continuas a ir todas as noites ao café. Que estás connosco. Sempre.
Lembro-me que, um dia, me fizeste um resumo da tua vida. Que te chamam Pinga, porque eras um craque da Rua de Santo António. Que foste para a Música de Vila já tarde, porque tinhas bom ouvido. Que foi graças a ti, ao teu esforço e à tua dedicação, que muita coisa se conseguiu. Que estiveste sempre na linha da frente quando precisávamos de um espaço para ensaiar. Que ajudaste a comprar muita coisa para a Banda. Que foste um dos dinamizadores da Mina, de que muita gente ainda se lembra com um sorriso.
Olho para trás, e vejo que estão lá cerca de dez anos até ao dia em que ficámos amigos. Tu, renitente, porque eu tinha o cabelo comprido. Eu também, porque sabia que isso te incomodava. E rimo-nos disso, depois, quando recordámos esses tempos. Sei que não era o teu melhor amigo, e peço-te desculpa por não o ter sido.
Ainda me lembro do teu telefonema logo a seguir ao Concerto de Natal, a felicitar-me. Lembro-me de te ter dito um adeus apressado da última vez que nos vimos e eu tinha deixado o carro no meio da tua rua, que agora está mais bonita, mas sem ti à janela a ver-nos passar, emocionado. E de tu me teres, mais uma vez, falado muito bem da Banda nessa noite.Mas sei que tu voltas. Afinal, agora vais estar sempre aqui. Agora vais ser tu a dar-me as novidades. Vais ser tu a conduzir e a escolher a música a ouvir. Vamos poder encontrar-nos sempre que quisermos. E vou poder dizer-te olá como tu me costumavas dizer. Vou dizer-te, de cada vez que te vir, “Adeus, Soares!”.

domingo, 3 de Abril de 2005

No dia em que voltei a chorar

E fizeste-me sorrir no dia em que voltei a chorar. Fizeste-me sorrir, depois de beijar os teus cabelos e de querer ser o vento para te acariciar todo o rosto como uma vela de barco. Fizeste-me sorrir, depois de ver o teu sorriso cúmplice depois de um beijo. Fizeste-me sorrir, embora tenha perdido um dos companheiros de viagem, um dos marinheiros que me guiava. E fizeste-me sorrir, ao dobrar nos dedos cada cabelo teu, ao pegar na tua mão e sentir um leme. Acho que és uma estrela-guia. Olho-te mais perto, pela minha luneta. És tão grande como a lua, que vejo ao lado. Vejo o teu sorriso daqui. Vejo a minha mão a contornar cada curva do teu rosto, a percorrer o queixo, a puxar-te um sorriso. É daí que nasce o meu sorriso. Do teu. No dia em que voltei a chorar.