quinta-feira, 31 de Março de 2005

Fim de tarde

Abro o peito ao fim de tarde. A ti. Para que entres. Para que vejamos o sol reflectido no dourado de cada parede. Para que o vento quente nos afague o rosto e arrume o teu cabelo. E te rasgue um sorriso. Onde eu beba.

A Mulher, por Victor Hugo

«Enfim, o homem está colocado onde termina a terra; a mulher, onde começa o céu.»
(Victor Hugo)

quarta-feira, 30 de Março de 2005

Waking up

Acordo em alto mar. E logo afasto um braço para cada lado do corpo. Imagino-te aqui. Escutamos a música das ondas, das nuvens a navegar no céu, qual espelho. E navegamos sem rumo. Bebo do teu sorriso. Mantenho os braços abertos, fechando-os sobre ti. Vejo o farol de Finisterra. E sei que talvez um dia possamos estar ali, onde não é terra nem mar, e abrir os braços, e olhar o céu de olhos fechados. E respirar tudo. E respirar cada gota do teu perfume marinho. Como o faço. A cada momento.

Message in a Bottle III

Levo a mão à água, e surge nova garrafa. Desdobro o papel. E diz assim:

Momentos

«Escrevo a uma distância não terrena de 20 mil estados de submersão em pensamento… Estou em relativa peripécia mental. Sinto uma estranha vontade… Decerto vivo…
Estúpidos vão os tempos… entulhados de nuvens tristes e coisas afins… Não percebo a lógica do vento, esse que engana o meu papagaio de papel… empurrando-o para tristes paisagens perfuradas com oásis de determinação e coragem…
Tudo confundo…tudo confuso… pouso de leve os meus olhos em flores que crescem no meio dos campos baldios, e encho de esperança o meu coração, qual pedra que o tempo desgasta… Ah, as flores… pequenos sopros de vida que perfuram a terra… frágeis e belas, como todos os batimentos no meu peito…
Imagino um mundo diferente. Gosto de pensar que existe um lugar onde tudo se torne claro e simples. Dou comigo a pensar em coisas e pessoas que não existem… Triste me torno e pinto o meu mundo real com as cores dessa tristeza, fruto da minha frustração imaginativa… Sonho apenas para afrontar a minha razão, numa tentativa de lhe fazer ver que há algo para além dela… mas em vão me esforço… em vão imagino… em vão me entretenho… Pois a forte determinação da razão é a coragem que falta aos sonhos bonitos da imaginação…
Tristes vão os tempos… estúpidas as nuvens que choram em fundos de alma… e coisas afins...»

terça-feira, 29 de Março de 2005

Message in a Bottle II

E eis que envio uma mensagem numa garrafa, boiando pelo mar. E dizia assim:

Não sei o sabor do choro. Não sei. Quis algumas vezes encontrá-lo, mas falhei sempre. Procurei-o muitas vezes emaranhando-me na teia dos passantes nas ruas citadinas e molhadas da chuva. Procurei-o por entre seios de mulheres, poucas, porque nunca as tive. Procurei-o talvez mais por entre os seios que não vi. Tantas vezes chorei. Sem sequer lhe saber o sabor.

segunda-feira, 28 de Março de 2005

Se Deus tivesse criado a Mulher antes do Homem, de Millor Fernandes (Sob o pseudónimo de Emanuel Van Gogo)

«Ih! Que é que você está fazendo aí, hem, Todo-Poderoso? Deixa eu brincar com o barro também? Não estrago seu brinquedo, não. Eh, que é isso? Parece uma cara! Ih, parece uma cara igual a um bicho. Parece um macaco, seu! Puxa, você é um craque, Todo-Poderoso. Bota um terceiro olho, bota! Ah, bota! Puxa, você é ruim, não atende! Ora, agora você encompridou o nariz. Estava tão bonitinho! Deixa eu ver, espera; está parecidinho com você, hem, Todo-Poderoso! Ah você o fez à sua semelhança; eu logo vi, estava olhando aí prò espelho de água. Não põe boca, não, põe uma tromba! Ah põe uma tromba, põe! Também, você não faz nada do que eu peço... Deixa eu ver, não ficou mal não. Mas o rosto é áspero. Porquê pêlo no rosto? Deixa ele sem pêlo no rosto, deixa! Só um bigodinho ficava muito melhor. Posso fazer a orelha esquerda? Olha, esta aqui é de outra cor. Bota a orelha de outra cor, bota! Vai ficar bacana. Posso fazer? Eu garanto que vai ficar um amor se você botar orelha de outra cor. Faz as costas prà frente agora. Não, ao contrário. Fica diferente de mim; ele está muito parecido comigo. O animal mais parecido comigo que Você já fez até hoje. Vai ter dois braços também? Ah, não põe dois braços, não. Deixa só eu com dois braços. Faz sem braços e com três pernas. Fica muito mais engraçado. Você não atende nada, hem! Também eu não ajudo mais em coisa nenhuma. Já está pronto? Ficou diferente um pouco de mim, hem! Não é muito, não, mas um pouco diferente ficou. É, não está mal, não, como primeiro. Você vai fazer mais desses? Vai? Que nome vai dar? Homem? Ah, não põe homem, não; esse nome não pega. Põe outro nome! Ih, olha! Você esqueceu do rabo! Este animal não tem rabo?! Ah, vai andar em pé também? Então põe ele em pé pra mim ver. Chi, ficou bonito mesmo! Você deixa eu soprar esse, deixa?»
Emanuel Vão Gogo

Message in a bottle

E eis que chega uma mensagem a boiar numa garrafa. Vem de uma companheira de viagem. E diz assim:
«Os marinheiros também existem em terra. E como os marinheiros de mar, também nós navegantes do solo terrestre precisamos de uma estrela-guia. Em terra, essas estrelas são mais dificeis de encontrar, porque elas escondem-se na multidão, enão brilham como as estrelas do céu. O brilho das estrelas dos marinheiros de terra têm um brilho mais discreto, que não se vê, porque é o brilho da alma. E por isso por vezes parecemos um pouco desorientados, porque todos andam à procura dessa estrela, aquela que nos faz companhia enquanto traçamos o nosso caminho. Outras vezes até pensamos que já encontramos a nossa estrela, mas pode não ser verdade, porque há por aí estrelas que enganam. Mas quando encontrarmos a nossa verdadeira estrela, nós sabemos que a descobrimos, porque ela não quer sair do nosso lado. Por isso vale a pena continuarmos a nossa busca, porque as estrelas da terra não se escondem por muito tempo. Às vezes ela está mesmo ao nosso lado, nós é que não a conseguimos ver. Por isso Marinheiro de Terra... fica atento!»

Saudade

Estranho. Acho que tenho saudades. Pelo menos, é o que me parece. Acho que tenho saudades dos teus olhos fechados. Da tua surpresa pelas flores. Das flores. Do teu arrepio. Estranho. Porque te posso ver quando quiser. Acho que tenho saudades tuas. Pelo menos, é o que me parece. Acho que tenho saudades dos teus braços, em volta dos quais nasce um mar. E sorris. Sorris sempre. E são ondas. E é todo o mar até ao sol, reflectindo o sol. E és todo o mar reflectindo tudo o que tocas. Acho que tenho saudades tuas. Pelo menos, é o que me parece. Porque parece-me que gosto mais de ver o meu reflexo em ti.

domingo, 27 de Março de 2005

Um amanhecer de Tulipas amarelas

E, de repente, amanheceste em tulipas amarelas. Amanheceste com o mesmo sorriso com que te deixei ontem, com o teu sorriso. Aquele de que eu gosto, não me perguntes porquê, porque não se consegue responder. Amanheceste em mim, com um abraço apertado. Em tulipas amarelas. Quando vens buscá-las?

sábado, 26 de Março de 2005

Segue o teu destino, de Ricardo Reis

E ouço, com toda a profundidade do ouvir, a ode de Ricardo Reis, musicada por Sueli Costa e cantada por Nana Caymmi. Diz assim:


Segue o teu destino
Rega tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é sombra
De arvores alheias.

A realidade
Sei que é mais ou menos
Do que nós queremos
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios
Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
A resposta está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

«Poeta», de Vicente Amigo

Volto a ouvir «Poeta», de Vicente Amigo. E de novo retornas ao meu porto. Por mais que navegue, retornas ao meu porto. Em alto mar. Retornas. São ondas, espuma de cordas, ventos de sopros. E tu. Navegando, colhendo com os olhos o sal, com as mãos o azul, com todo o corpo a espuma, e com o teu sopro comandas os ventos. E volto a partir. Volto a navegar. Em ti.

Retornos del Amor Recién Aparecido, de Rafael Alberti

«Cuando tú apareciste, penaba yo en la entraña más profunda de una cueva sin aire y sin salida. Braceaba en lo oscuro, agonizando, oyendo un estertor que aleteaba como el latir de un ave imperceptible. Sobre mí derramaste tus cabellos y ascendí al sol y vi que eran la aurora cubriendo un alto mar de primavera. Fue como si llegara al más hermoso puerto del mediodía. Se anegaban en ti los más lucidos paisajes: claros, agudos montes coronados de nieve rosa, fuentes escondidas en el rizado umbroso de los bosques. Yo aprendí a descansar sobre tus hombros y a descender por ríos y laderas, a entrelazarme en las tendidas ramas y a hacer del sueño mi más dulce muerte. Arcos me abriste y mis floridos años, recién subidos a la luz, yacieron bajo el amor de tu apretada sombra, sacando el corazón al viento libre y ajustándolo al verde son del tuyo. Ya iba a dormir, ya a despertar sabiendoque no penaba en una cueva oscura, braceando sin aire y sin salida. Porque habías al fin aparecido.»
(Rafael Alberti)

Si mi voz muriera en tierra, de Rafael Alberti

Si mi voz muriera en tierra
llevadla al nivel del mar
y dejadla en la ribera.

Llevadla al nivel del mar
y nombardla capitana
de un blanco bajel de guerra.

¡Oh mi voz condecorada
con la insignia marinera:
sobre el corazón un ancla
y sobre el ancla una estrella
y sobre la estrella el viento
y sobre el viento la vela!

Rafael Alberti, 1924

Discurso do filme «The Great Dictator», de Charlie Chaplin

«Lo siento.
Pero yo no quiero ser emperador. Ese no es mi oficio, sino ayudar a todos si fuera posible. Blancos o negros. Judíos o gentiles. Tenemos que ayudarnos los unos a los otros; los seres humanos somos así. Queremos hacer felices a los demás, no hacernos desgraciados. No queremos odiar ni ayudar a nadie. En este mundo hay sitio para todos y la buena tierra es rica y puede alimentar a todos los seres. El camino de la vida puede ser libre y hermoso, pero lo hemos perdido. La codicia ha envenenado las armas, ha levantado barreras de odio, nos ha empujado hacia las miserias y las matanzas.
Hemos progresado muy deprisa, pero nos hemos encarcelado a nosotros mismos. El maquinismo, que crea abundancia, nos deja en la necesidad. Nuestro conocimiento nos ha hecho cínicos. Nuestra inteligencia, duros y secos. Pensamos demasiado, sentimos muy poco.
Más que máquinas necesitamos más humanidad. Más que inteligencia, tener bondad y dulzura.
Sin estas cualidades la vida será violenta, se perderá todo. Los aviones y la radio nos hacen sentirnos más cercanos. La verdadera naturaleza de estos inventos exige bondad humana, exige la hermandad universal que nos una a todos nosotros.
Ahora mismo, mi voz llega a millones de seres en todo el mundo, millones de hombres desesperados, mujeres y niños, víctimas de un sistema que hace torturar a los hombres y encarcelar a gentes inocentes. A los que puedan oirme, les digo: no deseperéis. La desdicha que padecemos no es más que la pasajera codicia y la amargura de homres que temen seguir el camino del progreso humano.
El odio pasará y caerán los dictadores, y el poder que se le quitó al pueblo se le reintegrará al pueblo, y, así, mientras el Hombre exista, la libertad no perecerá.
Soldados.
No os entreguéis a esos que en realidad os desprecian, os esclavizan, reglamentan vuestras vidas y os dicen qué tenéis que hacer, qué decir y qué sentir.
Os barren el cerebro, os ceban, os tratan como a ganado y como carne de cañón. No os entreguéis a estos individuos inhumanos, hombres máquina, con cerebros y corazones de máquina.
Vosotros no sois ganado, no sois máquinas, sois Hombres. Lleváis el amor de la Humanidad en vuestros corazones, no el odio. Sólo lo que no aman odian, los que nos aman y los inhumanos.
Soldados.
No luchéis por la esclavitud, sino por la libertad. El el capítulo 17 de San Lucas se lee: "El Reino de Dios no está en un hombre, ni en un grupo de hombres, sino en todos los hombres..." Vosotros los hombres tenéis el poder. El poder de crear máquinas, el poder de crear felicidad, el poder de hacer esta vida libre y hermosa y convertirla en una maravilosa aventura.
En nombre de la democracia, utilicemos ese poder actuando todos unidos. Luchemos por un mundo nuevo, digno y noble que garantice a los hombres un trabajo, a la juventud un futuro y a la vejez seguridad. Pero bajo la promesa de esas cosas, las fieras subieron al poder. Pero mintieron; nunca han cumplido sus promesas ni nunca las cumplirán. Los dictadores son libres sólo ellos, pero esclavizan al pueblo. Luchemos ahora para hacer realidad lo prometido. Todos a luchar para liberar al mundo. Para derribar barreras nacionales, para eliminar la ambición, el odio y la intolerancia.
Luchemos por el mundo de la razón.
Un mundo donde la ciencia, el progreso, nos conduzca a todos a la felicidad.
Soldados.
En nombre de la democracia, debemos unirnos todos.»

Escuta-me

Escuta-me. Sei que é difícil reparares em mim quando passo, porque não sou nada de especial. Pudera eu ser apenas a sombra. Tenho tentado. Sei que não tens tempo. Sei que não me queres. Escuta-me. Sei do que vi em ti, de quem vi dentro de ti. Sei do que aqui deixaste. Deixaste em mim a mais bela Torre de Babel que alguém podia ter construido. Só tu o podias ter feito.Não te peço que a concluas. Não quero que a concluas. Não gosto da palavra "concluas". Queria ver o sol nascer e pôr-se por entre as janelas da obra que não terminámos. Mas não. É difícil reparares em mim quando passo, porque não sou nada de especial. Pudera eu ser apenas a sombra. Tenho tentado. Sei que não tens tempo. Sei que não me queres. Escuta-me.
24 de Março de 2005

No dia em que me lembrei de ti

Lembro-me, às vezes, do dia em que estive a olhar-te sem contar o tempo que passava. Pareceu-me, então, parece-me que o tínhamos parado. Que o tinhas parado. Lembro-me que me sentei no chão, e que te admirei. Lembro-me que te quis beber o beijo, mas, não sei porquê, não consegui. Às vezes, lembro-me de que o bebi, mas não é um lembrar de lembrar, mas um lembrar de querer que tivesse sido.
E ninguém pode dizer o que teria sido. Lembro-me que me fizeste, um dia, subir a uma montanha dentro de mim. Conheço o caminho, cada curva. Conheço o subir e o descer. E visito-a, de vez em quando. Como quem visita um sonho. Vejo-te passar, às vezes. Digo-te olá. Fico sem jeito, às vezes. Porque queria dizer-te mais que olá, mas não sei que te possa dizer. Porque o teu sorriso cúmplice me desarma.
Como num duelo, virámos as costas. Contámos dez passos. Virámo-nos. E disparámos um aceno um para o outro. Aprendi a viver contigo ou sem ti. A saber que talvez não voltes. Não fico triste. Não me dói nada. Tu foste. Eu fui. Continuámos. Talvez não seja saudável querermos pressionar o botão para trás no filme. Podíamos ter escrito outro final, mas... se calhar não tínhamos tido filme.
Instintivamente, alguém me coloca um sorriso sempre que vejo a caixa que comprei para guardar as tuas cartas. Sempre que me lembro de muitas coisas que partilhámos. Será pouco, talvez. Mas nunca tive grandes tesouros, estou habituado. Como te digo, não me dói nada. Recordo-o como o meu primeiro grande tombo na bicicleta. Mantenho a curiosidade sobre o sabor do teu beijo.
Que tento perceber quando te lembro, quando te vejo. Mas não me dói nada. Acho que apenas continuo curioso. O mundo girou. Adormecemos, acordamos, sonhamos e realizamos. Caímos e levantamo-nos. Só lembro. Sinto outra vez, por momentos. Não me dói nada. Só vejo e revejo o filme, ou capítulos. Entro outra vez nas cenas. Em suma. Esquece tudo o que te escrevi.
25/26 de Março de 2005